OS PESCADORES ARTESANAIS DA BAÍA DE GUANABARA, A MARINHA DO BRASIL E A VIOLÊNCIA BIOÉTNICA
Resumo
Este artigo é o desdobramento de minha tese de doutoramento e apresenta um estudo qualitativo, de base etnográfica, sobre os casos de violência relatados por pescadores artesanais na baía de Guanabara, Rio de Janeiro. O objetivo geral deste estudo foi investigar como a violência advinda das delimitações territoriais da Marinha do Brasil, interferem no trabalho do pescador artesanal. A amostra foi construída por meio da metodologia conhecida como “bola de neve”. Os instrumentos para coleta de dados foram observação participante e entrevistas semiestruturadas. Entrevistamos 20 pescadores artesanais, das colônias Z-8, Z-9, Z-10, Z-11, Associação de Pescadores de Tubiacanga, pescadores sem afiliação e um representante da FEPERJ. A análise dos dados coletados intercorreu através da figuração da tematização dos discursos. Os resultados indicam que os casos de violência relatados estão relacionados ao avanço das fronteiras das edificações e aquartelamentos navais da Marinha do Brasil sobre o espaço de pesca e coleta artesanal. Percebemos a complexidade da multiterritorialização, de configuração complexa na região da baía de Guanabara. Alegamos que os pescadores e coletores artesanais perpassam por um estado de violência bioétnica, resultando na devastação dos ecossistemas no epistemicídio étnico, a aniquilação cultural, laboral e existencial desses homens e mulheres.
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